Não é preciso marcar o tempo, basta abandoná-lo. De que adianta saber que dia é hoje? As horas sim, são importantes. O dia é bem dividido, cada hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim. O que tiver que acontecer, é dentro dele.
Cada momento é uma antecedência para nós. Uma espera que se substitui infinitamente. Vivemos na ansiedade pela ocasião que haveria de chegar.
Assim, nossa vida se distende como um elástico, esticando-se ao máximo, atingindo o estado de tensão, inquietação. Quando o dia se acaba, a esperança nasce outra vez dentro de nós. Aguardamos os instantes que fariam o dia seguinte repleto-vazio. Instantes despidos daquilo que nos falta. Algo que necessitamos, mas não vamos buscar, ficamos na expectativa que aconteça. A falta não está dentro do tempo, mas no vazio real. Preenchemos nossas vidas com objetos, até que a nossa casa vire um bazar de artigos únicos. Vasos, porta-retratos, criados-mudos, bibelôs, cinzeiros, tapetes, xícaras, roupas, relógios parados, paredes com quadros, e calendários, dois ou três por todos os lados.
Agora me dou conta: Calendários são substituídos. E os nosso dias ficam guardados, armazenados. Neles nenhuma marca. Nem sequer rasura. Conjunto, soma de todos os nossos instantes. E eu fico olhando para esses calendários, são dias jogados fora, ou números intocados?
Texto do livro "Não Verás País Nenhum".
Adaptação e interpretação, Giovanna.

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