"É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: É a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos: Embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira."
Charles Baudelaire, Petits poémes en prose, 1869.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
domingo, 16 de dezembro de 2012
Calendários...
Não é preciso marcar o tempo, basta abandoná-lo. De que adianta saber que dia é hoje? As horas sim, são importantes. O dia é bem dividido, cada hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim. O que tiver que acontecer, é dentro dele.
Cada momento é uma antecedência para nós. Uma espera que se substitui infinitamente. Vivemos na ansiedade pela ocasião que haveria de chegar.
Assim, nossa vida se distende como um elástico, esticando-se ao máximo, atingindo o estado de tensão, inquietação. Quando o dia se acaba, a esperança nasce outra vez dentro de nós. Aguardamos os instantes que fariam o dia seguinte repleto-vazio. Instantes despidos daquilo que nos falta. Algo que necessitamos, mas não vamos buscar, ficamos na expectativa que aconteça. A falta não está dentro do tempo, mas no vazio real. Preenchemos nossas vidas com objetos, até que a nossa casa vire um bazar de artigos únicos. Vasos, porta-retratos, criados-mudos, bibelôs, cinzeiros, tapetes, xícaras, roupas, relógios parados, paredes com quadros, e calendários, dois ou três por todos os lados.
Agora me dou conta: Calendários são substituídos. E os nosso dias ficam guardados, armazenados. Neles nenhuma marca. Nem sequer rasura. Conjunto, soma de todos os nossos instantes. E eu fico olhando para esses calendários, são dias jogados fora, ou números intocados?
Texto do livro "Não Verás País Nenhum".
Adaptação e interpretação, Giovanna.
Cada momento é uma antecedência para nós. Uma espera que se substitui infinitamente. Vivemos na ansiedade pela ocasião que haveria de chegar.
Assim, nossa vida se distende como um elástico, esticando-se ao máximo, atingindo o estado de tensão, inquietação. Quando o dia se acaba, a esperança nasce outra vez dentro de nós. Aguardamos os instantes que fariam o dia seguinte repleto-vazio. Instantes despidos daquilo que nos falta. Algo que necessitamos, mas não vamos buscar, ficamos na expectativa que aconteça. A falta não está dentro do tempo, mas no vazio real. Preenchemos nossas vidas com objetos, até que a nossa casa vire um bazar de artigos únicos. Vasos, porta-retratos, criados-mudos, bibelôs, cinzeiros, tapetes, xícaras, roupas, relógios parados, paredes com quadros, e calendários, dois ou três por todos os lados.
Agora me dou conta: Calendários são substituídos. E os nosso dias ficam guardados, armazenados. Neles nenhuma marca. Nem sequer rasura. Conjunto, soma de todos os nossos instantes. E eu fico olhando para esses calendários, são dias jogados fora, ou números intocados?
Texto do livro "Não Verás País Nenhum".
Adaptação e interpretação, Giovanna.
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